Muito mais que fake news

Por Leonardo Brito

A hiper-realidade é, posta simplesmente, a inabilidade de distinguir a realidade de um simulacro de realidade. Ou, em outras palavras, é quando o real e a ficção se confundem.

Isso tem tudo a ver com o momento atual do Brasil. As eleições presidenciais de 2018 e todas as celeumas em torno dela são um exemplo perfeito de hiper-realidade. Antes das eleições, já podíamos dizer que vivíamos corriqueiramente em situações de hiper-realidade. Exemplos do cotidiano não faltam: “será que essa foto é real ou é Photoshop?”.

O simulacro de realidade — a realidade inventada, ou “a narrativa” — permeia e se confunde com a realidade. Um exemplo prosaico é o “problema da corrupção”, elencada pelos brasileiros como o maior problema do Brasil[1]. Apesar dessa posição de destaque nas preocupações do povo, estima-se que as perdas pecuniárias com corrupção sejam 7 vezes menores do que as perdas com sonegação fiscal, por exemplo[2]. Não só esse é o maior problema do país, como o Brasil é também um dos países mais corruptos do mundo segundo pesquisa feita com “líderes empresariais”[3]. A “corrupção”, esse termo vago e aberto a interpretações, preocupa mais os brasileiros que outros problemas muito mais concretos e objetivos: insegurança e violência, pobreza, acesso à saúde, acesso à educação, etc.

A narrativa em torno da corrupção confundiu-se com a realidade. No mundo real temos países como os EUA, onde 17 bilhões de dólares em dinheiro vivo desaparecem[4], e 17 das 50 cidades mais violentas do mundo são brasileiras[5]. A despeito disso, os brasileiros vêem seu país como um dos mais corruptos e a corrupção como o maior problema do país. De alguma forma, o simulacro de realidade construído em torno da corrupção substitui a realidade de que ela não é, nem de longe, o problema mais grave do país.

O circo armado em torno do período eleitoral só amplificou esse fenômeno. A esta altura há diversos artigos já tratando sobre a proliferação de fake news nas eleições. Mas o problema é um tanto mais profundo que isso. As notícias falsas são apenas uma faceta da construção meticulosa de um simulacro de realidade em torno do candidato-alvo.

Outra faceta talvez mais interessante e relevante são os memes e vídeos veiculados nessa temporada eleitoral. Num vídeo amplamente divulgado em correntes de Whatsapp, um homem indignado exibe uma mamadeira em formato de pênis que “vai ser distribuída para as crianças do Brasil por Haddad”. Várias perguntas podem ser feitas: o autor do vídeo acredita em algum grau no que diz? Ele acredita que o governo federal produziria estas mamadeiras em larga escala para distribuir nas milhares de creches de todo o território nacional?

piroca

Qualquer argumento racional subumbe a um vídeo de mamadeiras de pênis.

Talvez o próprio autor reconheça que o que diz é estapafúrdio e apenas tenha feito o vídeo num tom jocoso. O ponto crucial, no entanto, é que isso — o grau de realidade da coisa — não importa mais. Mesmo que quem assista ao vídeo não acredite na informação do narrador, o símbolo já foi plantado em sua mente: mesmo não levando aquilo completamente a sério, o espectador passa a associar o candidato a mamadeiras de pênis.

Neste sentido o vídeo é, apesar de simples e vulgar, genial. Ele bate exatamente na tecla correta: não é necessário que a informação tenha um caráter fidedigno e confiável. Talvez não seja nem mesmo preferível — informações falsas se espalham mais rapidamente e despertam emoções diferentes das reais[6]. O tosco, o bizarro, o que vive nas margens das possibilidades — esse é o objetivo. A informação ideal é aquela que — muito além da questão irrelevante de ser “verdade” ou “mentira” — deixa na mente do consumidor a dúvida sutil: “É bizarro, mas será que é verdade?“.

Nos anos de governo petista (2003-2015), o setor bancário celebrou lucros recordes.[7] Porém de alguma forma o período é retratado em memes e vídeos inflamados como uma aventura nas profundezas de um socialismo soviético. Nas eleições o fenômeno da realidade paralela comunista foi expandido para incluir todos os que não aderiram ao ex-deputado do baixo clero que concorre à presidência, ou que por algum motivo são pouco palatáveis para serem exibidos como aliados. Marine Le Pen[8] e Francis Fukuyama[9] tornaram-se, na visão dos adeptos do ex-deputado, comunistas inveterados após manifestarem opiniões negativas ao líder. Por outro lado David Duke, notório neo-nazista dos Estados Unidos que manifestou apoio à candidatura do ex-deputado tornou-se imediatamente também um “esquerdista”.

fukuyama

Fukuyama, apologeta do liberalismo econômico, é agora um “comunista”.

Num nível superficial esses casos são apenas uma vulgarização do termo “comunista”, que no jargão do séquito do ex-deputado é apenas um sinônimo de “inimigo” ou “bobão”. Num nível simbólico mais profundo, porém, acontece um esvaziamento semântico total na linguagem desses aderentes. No discurso político, as palavras passam a significar qualquer coisa que seja mais conveniente para aquele momento, mesmo que esse significado seja o oposto do significado original — o que explica chamar o baluarte anti-comunista Francis Fukuyama de comunista. A linguagem é uma das matérias primas que constroem a realidade: adulterando a linguagem, cria-se também uma realidade adulterada.

O simulacro de realidade engloba também o próprio candidato e aliados ideológicos, e não apenas seus adversários. O nicho político do ex-deputado é o mesmo que surgiu em 2013 nas Jornadas de Junho, cresceu e se consolidou em 2015-2016 com a derrocada de Dilma Rouseff da presidência. Apesar de hoje o candidato atrair brasileiros de todos os estratos sociais e regiões do Brasil, seu nicho político é bem definido: classe média e alta decepcionada ou revoltada com a esquerda em geral e o Partido dos Trabalhadores em particular. Esse nicho valoriza, ao menos ostensivamente, os valores da família, da “ética protestante” do trabalho, o nacionalismo superficial, o moralismo e o anti-progressismo.

Porém, quem são hoje os representantes eleitos desse nicho? O próprio ex-deputado candidato a presidente, casado 3 vezes, não vai ao encontro do conceito de família tradicional. Um de seus maiores cabos eleitorais, cotado para ser ministro da cultura[10], é um ex-ator pornô gay viciado em cocaína. Um ex-músico famoso, também baluarte desse grupo político, conta que masturbava-se com uma cruz[11].

No entanto, todas essas figuras vulgares gozam de imenso prestígio nesse nicho político. A realidade escatológica, vulgar e completamente contrária aos valores do eleitorado de fato não importa — o simulacro tomou o lugar do real na percepção desses líderes pelos seus seguidores. Pouco importa que o candidato do PSL, tenha batido continência para a bandeira dos Estados Unidos[12]; no simulacro de realidade em que seus seguidores habitam, ele segue sendo um nacionalista ferrenho. O símbolo toma o lugar daquilo que ele representa, não mantendo mais vínculo algum com aquilo que é representado — o ator pornô gay torna-se um embaixador do conservadorismo e moral cristã, o ex-deputado que bate continência para uma bandeira estrangeira torna-se representante máximo do nacionalismo, e por aí vai.

Perdemos a batalha ao discutirmos apenas a importância das fake news. O problema é outro, ou melhor: o buraco é mais embaixo. O substrato necessário para que a hiper-realidade brote é o pós-modernismo, a partir do qual começamos a pôr em dúvida a realidade do real. Ironicamente são os mesmos partidários do pós-modernismo que hoje combatem, exasperados e um tanto perdidos, a candidatura do ex-deputado. Memes, vídeos denunciando mamadeiras de pênis, “mitadas” e mentiras fantásticas — essas são as armas mais eficientes na batalha ideológica atual.


Notas

[1] https://oglobo.globo.com/brasil/latinobarometro-corrupcao-aparece-pela-1-vez-como-principal-preocupacao-para-brasil-diz-pesquisa-21999964

[2] http://www.cartacapital.com.br/economia/sonegacao-de-impostos-e-sete-vezes-maior-que-a-corrupcao-9109.html

[3]https://brasil.elpais.com/brasil/2016/10/03/internacional/1475517627_935822.html

[4] https://www.theguardian.com/world/2007/feb/08/usa.iraq1

[5] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43309946

 

[6] https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2018/03/epoca-negocios-fake-news-se-espalham-70-mais-rapido-que-as-noticias-verdadeiras-diz-mit.html

[7] https://oglobo.globo.com/economia/na-era-lula-bancos-tiveram-lucro-recorde-de-199-bilhoes-2818232

[8] https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/agencia-estado/2018/10/11/marine-le-pen-critica-bolsonaro-diz-coisas-extremamente-desagradaveis.htm

[9] https://twitter.com/FukuyamaFrancis/status/1050043678490673152

[10] https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-diz-que-quer-alexandre-frota-ministro-da-cultura-em-video-22535166

[11] http://catolicidadetradit.blogspot.com/2014/03/lobao-e-conservador.html

[12] https://www.poder360.com.br/eleicoes/programa-de-haddad-mostra-bolsonaro-batendo-continencia-para-bandeira-americana/

Anúncios

Um comentário sobre “Muito mais que fake news

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s