Identidade, Território e Raízes brasileiras: uma entrevista com Flávia Virgínia

flavia

Bem, primeiro gostaríamos de agradecer sua disponibilidade em nos conceder esta entrevista. Para falar a verdade, alguns de nós sempre achamos curioso ver a “filha do Djavan” (inevitável a associação, não é?) frequentando os meios dissidentes e se aproximando do Dugin e da Quarta Teoria Política. Essa foi uma das razões que motivaram a entrevista.

Dito isto, pode-se dizer que você, além de simpatizante, é uma adepta do corpo teórico e prático da Quarta Teoria Política (4ªTP)?

Totalmente adepta e, indo mais longe, tenho me dedicado integralmente ao desenvolvimento deste corpo teórico e de pôr em prática as ideias desta teoria, sob orientação do Professor Dugin.

Nesse caso, como se deu essa adesão exatamente? Pode falar um pouco sobre o seu percurso intelectual até chegar a 4ªTP e a obra do professor Dugin?

Meu caminho original é a música, mas meu interesse sempre se estendeu para além dela, para dentro do conhecimento, especialmente aquele que nos permite, quem sabe, conhecer e decifrar melhor o homem. Assim, fui estudando religião, filosofia, psicologia, ciências políticas, esoterismo e as culturas propriamente ditas, a começar pelas suas línguas e suas músicas. Mas essas buscas me colocaram numa posição muito sui generis, porque nunca encontrei realmente ninguém com quem me encaixasse plenamente, nem conheci muitas pessoas com um trajeto semelhante. Foi sempre um caminho muito próprio e um pouco solitário.

Em 2012, fazendo parte de um grupo de trabalhos da USP – Laboratório de Estudos da Ásia –, tomei conhecimento da vinda de Alexander Dugin. Fui à palestra desprovida de qualquer entendimento prévio sobre o tema, mas considerando a Rússia como um dos países que se encaixavam no escopo dos “países a se ter em conta” (por causa dos BRICS). Minha surpresa não poderia ter sido maior: ali eram ditas coisas nas quais acreditei a vida inteira, desenvolvidos temas que eram centrais para mim e, além disso, havia um tom de esperança na própria mensagem, de que o que eu buscava tinha paralelo exato com outras pessoas – pelo menos com mais uma pessoa.
A partir da mesma semana retomei minhas aulas de russo, que, estranhamente, havia começado aos 17 anos (!) e passei a me aprofundar no tema da melhor maneira que pude, sempre me identificando mais e mais.



E depois disso você buscou se aproximar pessoalmente do professor Dugin?

Não, preferi me aprofundar mais no trabalho dele, nos conceitos principalmente, e também decidir qual poderia ser minha contribuição e me preparar para ela. O trabalho é muito importante e, acompanhando com cuidado, eu pude ver que um dos maiores problemas é que as pessoas têm dificuldade de seguir o pensamento do professor Dugin até o final, porque ele é muito profundo e também vasto, usa informações de várias épocas e lugares, combinando tudo para formar um corpo teórico sólido, mas difícil de acompanhar. Se observarmos bem, a maior parte das críticas ao trabalho dele vem de pessoas que não o leram, mas apenas tiveram contato com os seus detratores.
Ao perceber isso, eu vi que era preciso uma aproximação mais cuidadosa e achei melhor esperar um bom momento, que ocorreu em Setembro de 2014, por ocasião do Encontro Evoliano (organizado pelo Dídimo Matos, também estudante do pensamento duguiniano, doutorando em Geopolítica pela USP com orientação do Professor André Martin, chefe do departamento de Geografia).
Nesta ocasião, eu fiz uma comunicação (O Papel do Judaísmo na Formação do Mundo Multipolar) no mesmo dia do Professor Dugin e do Professor André (curiosamente, 11 de Setembro), então tive oportunidade de conversar um pouco com ele (Dugin) e mostrar minhas ideias sobre a Quarta Teoria Política e outras coisas que venho desenvolvendo. A partir daí, mantivemos contato.

Acha que, além deste ponto que você mencionou, há outras dificuldades de ordem ideológica e política que dificultam a entrada efetiva da 4ªTP no debate político?

Sim, claro, afinal a Quarta Teoria Política é uma proposta que vai contra toda a ideologia desenvolvida para, na e pela Modernidade, ou seja, bate de frente com interesses muito arraigados – justamente aqueles que ganharam terreno dentro desta quadra histórica.
Entretanto, além dessa camada mais evidente de antagonismo a partir dos interesses, estou convencida de que há um outro nível que precisa ser tratado, de mais difícil acesso, mas fundamental: o epistemológico. É aqui que tenho trabalhado mais intensamente, desenvolvendo uma estrutura que possa dar conta do problema paulatinamente. As pessoas de um modo geral não são liberais porque querem, mas, a meu ver, porque são dotadas do que chamo de moldura mental liberal; mesmo sem sabê-lo, não conseguem ir além do que esta moldura permite para fazer uma leitura do mundo. Se assim não fosse, não agiriam como cordeiros diante das mais absurdas atrocidades que são claramente expostas. Para citar exemplos simples, na jornada cotidiana de trabalho ou numa telenovela.
Claro, esta dotação, sim, é minuciosamente engendrada pelos arquitetos conceituais que trabalham a favor do liberalismo e da ordem hegemônica vigente, não sendo em hipótese alguma natural ao homem, pelo contrário: sua semente só pode germinar se jogada num solo regado com um conjunto poderoso de lixo visual, auditivo, farmacêutico, com uma jornada de trabalho totalmente sem sentido e cada vez mais extenuante (o cansaço físico e mental joga aqui um papel crucial), com pseudo-religiões que estão, na verdade, a serviço do mercado, com uma poderosíssima indústria de distribuição de sub-culturas, com o conhecimento se tornando uma commoddity, tudo isso devidamente embasado por uma psicologia sem nenhuma profundidade, que prevê apenas o encaixe do homem no meio liberal em que vive, apoiada, sempre que possível, por psicofármacos cordeirizantes, democraticamente receitados, de crianças a idosos. Tudo para que todos assistam o Jornal da Desgraça Nacional e escutem o “Boa Noite” do William Bonner diariamente, sem reclamar.
No caso específico do Brasil, não haveria por quê a Quarta Teoria Política encontrar maior facilidade. Somos um país muitíssimo pobre – uma das únicas coisas que temos em relativa abundância é dinheiro, mas com uma identidade tão fraca, o dinheiro não faz a diferença que deveria. Será difícil como em todos os outros lugares e os últimos acontecimentos políticos têm demonstrado nossa fragilidade na área, sendo os próximos tempos bastante decisivos para nós também, em termos geopolíticos.

Você considera que essa moldura mental liberal é um tipo de Instituição Total invisível que domina todo o espectro político nacional, incluindo os movimentos de esquerda com viés “identitário” (movimentos negros, movimentos feministas) que, supostamente, se opõe ao liberalismo?

Vejo nessa sua pergunta três questões diferentes, que se tocam, advindas de lugares distintos.

Acho que o que há no Brasil é um tipo distinto de instituição, que não pode ser “total” porque, para isso, é preciso que se conte com uma cultura, uma identidade que seja um pouco mais consciente de si própria e vá traçando, ela mesma, seus esquemas totais. Não é o caso nosso. Nossas ações e nossa história são bem mais permeadas pela inconsciência sobre nós mesmos, como demonstra com grande clareza a história do século XX, quando, por breves 34 anos, houve uma tentativa de “nacionalizar” o Brasil. A instituição total que nos impediu veio de fora, naturalmente, e assim permanecemos até hoje, com pequenas demonstrações de dissidência ao modelo dominante. Embora pequenas, suficientes para assustá-lo, claro.

Mas acho que o que explica melhor o Brasil é o conceito de arqueomodernidade, também fruto dos trabalhos do Dugin, que, em resumo, mostra como certos povos foram obrigados à Modernidade sem de fato deixarem para trás sua forma arcaica de ser, e, ainda mais além, a própria Modernidade não mostrou ser a “cura” para essa condição maldita – certamente maldita, pois, no final das contas, não estamos nem lá, nem cá, tendo perdido contato com as duas pontas que nos poderiam oferecer um substrato mais sério para nossa identidade.

O que chama mais atenção nos movimentos que você chamou de “identitários” é justamente a falta de identidade. O que as mulheres querem? Trabalhar tanto quanto os homens ou trabalhar menos? Eu, por exemplo, quero trabalhar muito, muito menos (risos). O que os negros querem? Voltar para a África ou ganhar tão mal quanto os brancos que trabalham para o mercado? Eu, por exemplo, não quero voltar para a África (já morei lá, já fiz essa parte) e não quero ganhar mal (risos). Ou seja, qualquer movimento identitário advindo de um país sem identidade terá dificuldade de saber pelo que lutar. Isso não quer dizer que não deva-se se reunir, pelo contrário. Mais do que nunca, as quase- identidades têm que se conscientizar de sua condição e trabalhar para descobrir/criar uma identidade profunda. Acredito piamente nesse caminho. Mas é preciso consistência.

A Esquerda, por fim, já se comprovou ineficiente na lida com os aspectos da Modernidade e, no caso das Américas, com o agravante de extirpar do povo os aspectos espirituais e religiosos, mesmo quando depois tratou de reavê-los (a Teologia da Libertação, por exemplo – aliás, movimento que não serviu muito de padrão para outros. Posso estar enganada, mas não tenho conhecimento de que no seio das religiões afro-brasileiras se discutam esses aspectos com essa clareza, e veja que estamos falando das religiões mais identitárias do Brasil, até por que são uma das peças mais arcaicas que ainda temos).

Neste sentido, a esquerda toda deveria se unir, em primeiro lugar, tanto quanto os outros movimentos, e buscar rever seus conceitos partindo do princípio da derrota do seu modelo epistemológico, assumindo seu caráter excessivamente economicista como sendo um problema a ser superado e buscando novas teorias para lidar com a Pós-Modernidade galopante que nos será enfiada goela abaixo, para a qual eles (as esquerdas) não têm nem sequer no escopo teórico algum antídoto.

O professor Dugin, sempre que trata do assunto das divisões civilizacionais em um mundo multipolar, menciona a civilização Latino-Americana como parte integrante. Em um nível mais micro, se você fosse traçar uma divisão intra-civilizacional no contexto do Brasil, como se daria essa divisão? Digo: quais seriam as identidades fundamentais a serem resgatadas/construídas/preservadas no Brasil?

Em primeiro lugar, não vejo como pensar o Brasil numa divisão territorial, mesmo que ela respeitasse certos contornos identitários. Até porque, acredito que o Brasil é mais latino-americano do que o que gosta de imaginar, uma vez que partilha um mesmo destino histórico (tanto para frente como para trás) que é, acima de tudo e em si mesmo, um processo civilizatório. O nosso quinhão de conhecimento para a humanidade é precisamente responder, com nossas vidas reais, à dificílima pergunta sobre o que é descobrir/criar para si um logos, uma identidade. Não há nada mais importante para fazermos, pois jamais poderemos, por exemplo, competir no plano liberal do pensamento (e práxis) tecnológico, nem mesmo do pensamento puro da razão; e como disse o Dugin sobre a Rússia uma vez (o que também se aplica a nós latino-americanos), a falta absoluta de vontade como atributo essencial é um dos impasses fundamentais. Nesse sentido, a nossa árdua tarefa consiste na criação dessa vontade a partir de um sentido que não nos poderá ser outorgado de fora, sendo nossa tarefa máxima descobri-lo, inventá-lo, vivê-lo com todo o nosso ser. Fora disso, é padecer nesse calor infernal ou ser tragado por essas chuvas hediondas ou esturricar-se na seca mais inclemente. Podemos escolher livremente, dá na mesma.

Entenda-se bem, portanto, qualquer tentativa de pensamento separatista é ver a questão identitária pelo seu viés mais frágil – é enxergar uma diferença que não respeita o sentido. Claro que as regiões são diversas e trazem questões que lhes são próprias. Mas jamais escapariam ao destino latino-americano. É apenas uma confusão entre sistema aberto e sistema fechado. O quanto poderíamos, de fato, abrir?  É preciso respeitar as limitações do pensamento geopolítico para que a geopolítica possa seguir fazendo sentido. O Sul separado não resultaria numa região rica, próspera e de pessoas felizes: resultaria num pedaço de chão em que parte da sua história desrespeitou o conjunto em nome de um ideal também ele revestido de sentimentos liberais: a riqueza, o progresso, a defesa da propriedade privada da terra e da história de uma região.

Mesmo o nordeste, que deve ser a região mais rica do Brasil historicamente, por ser o início e inclusive também o meio (até aqui), não poderia ser o nordeste fora do contexto mais amplo que é responder a essa fatídica pergunta: quem nós queremos ser? Quem já somos hoje?

É bem verdade, no entanto, que os americanos (assim eu chamo aqueles a quem outros chamam de índios ou ameríndios) que ainda não perderam seu ser de si mesmos, esses, sim, poderiam reivindicar um espaço territorial que correspondesse à sua civilização. O prejuízo para o Brasil seria enorme, mas não maior do que o já foi até agora: já decidimos pela relação de destruição cultural, agregando um pouco mais de desprezo do que havia antes. O resgate da relação com os americanos vai sempre custar caro ao Brasil, mas, acima de tudo, é importante que custe caro. É com essas marcas que nos forjaremos na consciência, pois inconscientes viemos até aqui – e não foi bom.

Na sua concepção, pelo que eu entendi, o Brasil deveria construir sua própria identidade (a nível macro) tendo como base as diferentes identidades regionais (a nível micro), mas sem se desmanchar enquanto Brasil. Mas isso não implicaria na preservação da ideia de Nação, ideia esta que, desde o ponto de vista da 4ªTP, deveria ser superada?

A Nação tem que ser superada enquanto modelo político de sistema porque, tendo nascido para satisfazer, não comporta verdades identitárias naturais, mas forjadas em seu escopo geopolítico (territorial, por um lado, e de encaixe diante do restante do mundo, por outro). Mas poderíamos aqui falar de duas instâncias diversas ocorrendo simultaneamente no tempo e no espaço: um sentido nacionalista que origina um espaço político chamado (ainda) de Nação. E podíamos optar pelo o termo mais correto, que em russo é o narod, o Povo, mas seu uso no português não é tão eficiente. Esta é uma acepção útil e cara à Quarta Teoria Política, e ainda mais cara, se advinda de países como o Brasil, porque leva em consideração a criação de uma civilização a partir de seus diversos logos naturais. Esta é uma busca que serve ao Brasil e aos outros países da América (inclusive aos Estados Unidos, um dos mais populosos países latino-americanos – 44 milhões de latino-americanos vivem lá, sem falar os “índios”).

Ou seja, civilizações diversas, compartilhando o mesmo território, é algo bem próprio nosso. É preciso essa noção nacionalista, patriótica, para que se possa dar o passo civilizacional necessário, para que possamos perceber as garras globalizantes como maléficas e não como carícias com seus gadgets tecnológicos, sub-culturas, etc., e escolher um destino diferente, dizendo: “sim, eu adoro os seus presentinhos, o seu conforto e suas eternas novidades, mas gosto ainda mais da minha própria forma de ser, mais pobre em tecnologia e conforto, mas mais real e humana para mim”.

E por quê? Porque o Brasil não é a ilha Brasil – São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte. O Brasil é o Crato. É para o cidadão do Crato, acima de tudo, que o Brasil tem que fazer sentido. A ilha Brasil já está comprometida até o pescoço com os ideais liberais – ainda que, paradoxalmente, sejamos todos arqueomodernos e oscilemos entre decisões modernas e decisões arcaicas no percurso do dia.

Em suma, quem vai decidir tudo é à flor do mandacaru, aquela que só dura meia hora (risos)!

Sem nos atermos a questão do separatismo, você pode fazer um pequeno mapa das diversas identidades brasileiras, uma espécie de mapa identitário, segundo sua perspectiva?

Entendo essa questão como sendo central no Brasil e tenho tentado, ao longo dos anos, respondê-la. A meu ver, o Brasil faz parte de um conjunto de territórios segundo qual, precisamente, a questão identitária é aquilo que precisa definir-se, criar-se, inventar-se, utilizando tanto material consciente quanto inconsciente para isso. A falta de clareza sobre esse tema é o que torna o Brasil “o país do futuro”, e as questões econômicas ou políticas vêm na rebarba desse vazio, sendo muito bem utilizadas por quem já decidiu há muito sobre seu logos, sua identidade.
Mas vou arriscar (pois quem não arrisca, não petisca) e, levando em consideração uma frase importantíssima do Dugin: o principal papel do Estado é cuidar a dignidade humana; vou traçar um perfil do significado do meu recorte do ponto de vista antropopolítico.
Meus Brasis, até agora, são:

  1. Americanos (indígenas): o direito à sua cultura deve ser preservado não só na forma de demarcações de terras e expulsão de toda atividade capitalista delas, mas acima de tudo é preciso que se amplie na sociedade não-americana o interesse por eles e o entendimento claro de sua importância no tecido humano do planeta. Devem ser estudados no sistema educacional inteiro como um patrimônio inestimável e a permeabilidade entre as culturas deve ser intensamente cuidada, com muita penetração de lá para cá, e pouquíssima daqui para lá. É preciso, acima de tudo, empreender um caminho de compreensão filosófica com essas pessoas, muito mais do que antropológica, porque aí é onde reside a sua grande contribuição, quase inteiramente desperdiçada. Por fim, devemos todos nos esforçar para nos tornarmos cada vez mais como eles, naquilo em que ainda conseguirmos, e isso deve estar institucionalizado em todas as instâncias: aquilo que eles consideram importante, devemos considerar também, pois eles sobreviveram à perda do seu mundo, causada por “alienígenas”, mas nós, sem sua ajuda, não vamos sobreviver à perda do nosso, causada por nós mesmos.
  2. Rural: os valores são ligados ao cultivo da terra, aos tempos cíclicos, à vida e tradicional, à forte religiosidade, ao pouco desejo de mudança, embora esse não deva ser confundido como um estilo de vida miserável.
  3. Interiorano: cidades pequenas, com outro ritmo, em que as relações comerciais não estão ainda ligadas à ideia de grandes lucros, mas sim à de uma rede de trocas – em relação ao conhecimento, aos usos e costumes, em que os valores de grupo se capilarizam, para depois tornarem a juntar-se nos valores pessoais.
  4. Litorâneo: mentalidade entre o rural e o interiorano: o certo é que o trabalho não é a principal fonte organizadora dessa sociedade, pautada entre os valores de um e de outro, dependendo inclusive da proximidade das suas cidades com os centros produtores de dinheiro.
  5. Cosmopolita: o cosmopolitismo no Brasil é muito complicado, pois, embora seja pequeníssimo, com representantes habitando apenas três ou quatro cidades, tem força suficiente para levar o país inteiro para o seu principal problema, que é o amálgama entre a falta de logos mais a pseudoidentidade liberal que eles adotam e, com seu poderio financeiro e político, impõem como estilo de vida, valores a seres estimados e guia de comportamentos que vão do familiar ao político-econômico, criando para o Brasil um destino histórico contrário àquilo que os brasileiros, numericamente encontrados nas categorias acima, podem assegurar ontologicamente. O resultado, genericamente falando, é o caos brasileiro já nosso conhecido.

O que você quer dizer quando fala, em seu texto homônimo, em Nacionalismo do Amor? Pode dar uma definição concisa?

Embora essa frase tenha sido dita pelo Dugin (o texto foi escrito a quatro mãos), entendo que ele se refere, com isso, à possibilidade de uma convivência real entre todos os povos, que só pode se dar dentro de um entendimento do papel fundamental do “todos” na conjugação da ideia mesma de nacionalismo. Isto é, uma ideia de nacionalismo que suporte a morte de alguns grupos favorecendo outros não faz sentido e já morre de véspera. O amor tem que ser – ontologicamente, politicamente – esse lugar onde só existe o “todos”, pois assim é que é a Terra, assim a herdamos, e não de outro jeito. Qualquer perversão a esse sistema é a anti-Terra e é também a antítese do amor.
O liberalismo se pauta pelo “desentendimento”: quer uma Terra onde só existam eles mesmos, mesmo que possam ampliar o espectro dos tons de pele, línguas e alguns costumes. É também de certa forma, uma espécie de nacionalismo (conforme usamos no texto), mas do desentendimento e do desamor.

Em relação ao trabalho que você tem desenvolvido: pode falar um pouco a respeito? Como o professor Dugin tem contribuído pessoalmente para ele?

Tenho uma experiência de muitos anos na área de música, o meio no qual nasci, como cantora, compositora e produtora. Gravei dois álbuns: Livro-Mãe (2001) e O Amor É o Oposto do Medo (2004) – este último, totalmente gravado em Angola, onde eu morava na época, contando com a participação de artistas angolanos. Voltando ao Brasil, retomei meu interesse profundo pelo conhecimento, inclusive motivada por coisas que vi e vivi na África, buscando para mim uma forma de vida que pudesse trazer um nível de consciência mais ampliado, para mim mesma e para os outros – especialmente a da necessidade de mudança e da responsabilidade individual de cada um nela.

Criei um mecanismo de trabalho chamado Fourth Way Platform[1], onde organizo um pensamento para a mudança baseado na 4ªTP uma plataforma na internet que tem por intuito explicar bem os conceitos que embasam a 4ªTP, dar um sentido histórico (cronológico) e, simultaneamente, anaistórico (teleológico), ajudando a criar uma época pós-moderna luminosa, contrária à que se avista no horizonte – que é a pós-modernidade liberal, com sua missão civilizatória sombria dos últimos degraus do divisionismo. Acredito que cada geração tem obrigação de trazer os fins e os começos com sua consciência, não esperando que venham assim, sem mais, e trabalhar arduamente neste sentido: a pós-modernidade terá tanta luz quanto houver pessoas trabalhando por esta luz, daí meu convite através da plataforma. Acima de tudo, tento estabelecer uma nova epistemologia, fundamental me parece, para que a luz que a 4ªTP preconiza, como algo no nosso poder de escolha, possa realmente se materializar. Com o antigo entendimento, apenas a sombra pode tornar-se concreta – toda a estrada já está pavimentada para ela. Precisamos trabalhar com força e com vontade.

É bem verdade que a Plataforma está inicialmente em inglês, mas sendo a lingua franca atual, entendo que o material disponível lá pode ser facilmente traduzido para o português e isso pode ajudar na divulgação da 4TP no Brasil. Com bom material traduzido e explicado (que é um dos pontos fulcrais da Plataforma), penso que a desmistificação da 4ªTP no país toma lugar, sempre, claro, somando-se às iniciativas dos outros grupos e pessoas que também estudam e divulgam o tema.

Submeto ao Professor Dugin dúvidas e peço que leia os meus textos e também as traduções que faço para que ele ponha no site. Também vou sempre mostrando as atualizações da Plataforma e discutimos juntos também algumas estratégias. Como a Plataforma é um projeto de escopo bastante grande, minha principal finalidade é trabalhar com ele de forma bem alinhada – caso contrário, o sentido da Plataforma de ser um guia epistemológico se perderia – e isso tem tido muito bom efeito para o andamento das coisas. Temos uma conversa fácil e franca, ele me pergunta algumas coisas sobre o Brasil ou então eu conto algumas fofocas para ele (risos).

Ela ainda está em fase experimental, mas já funciona.

Após uma grande fase de preparação, meu objetivo para este ano é levar as ideias que me orientam a essa mudança a vários locais diferentes: aos amigos, à comunidade judaica (à qual pertenço), ao universo da música e da arte e inclusive ao meio corporativo, onde dou palestras variadas com consultora em Inteligência Ética, uma abordagem que criei para tornar o universo do trabalho mais preenchedor de sentido, dentre outras coisas. Entendo ser preciso criar um ambiente humano de consciência e sair da falta de sentido que nos é imposta por vários meios inteligentes, como nos encher de informação que não sabemos processar, ou de gadgets dos quais não necessitamos; de “relacionamentos abertos” que não nos trazem nada; de sexualidade que não sensualiza a nossa forma de ver a vida, etc. Enfim, a minha missão é ajudar na ampliação de consciência por todos os meios que me chamem a atenção, junto a todos aqueles que tiverem disposição para ouvir, sempre dentro da beleza, porque constato diariamente que a vida é, sim, bela – não cor-de-rosa, não pacífica, não fácil: bela. Espero deixá-la com a certeza de ter contribuído com todas as minhas forças. Espero deixá-la como uma pessoa plenamente humana.

Já o trabalho que tenho executado na comunidade judaica, no entanto, é incipiente ainda – umas poucas palestras, algumas trocas de ideias com amigos e rabinos e um pouco de escrita, embora ainda sem publicação. Também tenho me debruçado com muito amor, mas insuficiente dedicação (paradoxo possível em mim) nas origens judaicas do Brasil, pouco conhecidas e nada exploradas, até meio renegadas, mas não por muito tempo, se depender de mim. Em resumo, ainda estou numa fase de pesquisa, por assim dizer, embora em preparação para expor os resultados obtidos.

[1] http://4wplatform.wix.com/4wplatform

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