O Momento Liberal

Recentemente, textos liberais têm saído e sido muito divulgados na grande mídia. E essa iniciativa contempla tanto figuras cômicas, como Kim Kataguiri, quanto textos mais articulados, como o de Joel Pinheiro da Fonseca. É o texto deste último, publicado na Folha de São Paulo, que vamos comentar.

(…)

Contra a corrupção, nossos representantes propõem o fim do financiamento empresarial de campanhas e o aumento do fundo partidário. Proposta nova que é, na verdade, velha: foi a lei vigente até 1993, e não impedia corrupção alguma. Além disso, aumentar o fundo é dar aos políticos ainda mais poder.

Embora não tenhamos nenhuma opinião formada sobre este ponto, cabe notar que o autor passa simplesmente por alto nessa questão: o financiamento público de campanha impede que o poder econômico influencie demasiadamente a política. Ora, uma grande empresa, como a JBS, ao doar para um político qualquer, espera que receba algo em troca, favores políticos. Dessa maneira, a JBS, pelo seu gigantismo, obtém vantagens políticas claras, fazendo que sua influência seja maior do que a de um concorrente ou de um simples lavrador prejudicado por suas práticas.

Uma possibilidade para resolver essa questão seria impedir o financiamento por empresas. Embora diminua algumas distorções, ela não anula o fato de que um bilionário possui mais capacidades de influenciar o destino das eleições do que muitas pessoas de menor renda. Essa distorção compromete o sistema político vigente. O autor ignorou todos esses problemas e tratou os argumentos dessa discussão como simplesmente tendo o objetivo de diminuir a corrupção.

(…) Esse mesmo Estado é onipresente no peso dos impostos, das leis e das regulamentações, na burocracia e na violência contra expressiva parcela da população. Ao mesmo tempo, é ausente no que se propõe a oferecer e na capacidade de responder às demandas.

O Estado brasileiro é mesmo onipresente assim? Na verdade, um dos grandes problemas do Estado nacional é sua incapacidade de se adequar aos serviços a que se propõe, com um enorme déficit de servidores.

Diante disso, tem crescido a força da bandeira liberal, visível no 15 de março e ainda mais presente nos protestos deste domingo (12). A causa liberal cresce e amadurece. Primeiro com institutos, centros de pesquisa, sites e revistas. Agora com conferências, ambições políticas, partidos e movimentos organizados.

O liberalismo não é o reduto de economistas e banqueiros engravatados. Supera também as cansadas dicotomias entre direita e esquerda e situação e oposição.

Certamente o liberalismo não é o reduto apenas de banqueiros, mas que eles têm um papel central neles, ah se têm.

Dá mostras de renovação com uma sensibilidade social mais afinada e é capaz de abraçar o bolsa-família, ao mesmo tempo que denuncia o compadrio nocivo de grandes empresas com o poder estatal. Só que em vez de pedir ainda mais Estado, aposta nas trocas voluntárias e no empreendedorismo, que já é característico do brasileiro, ainda que asfixiado pelo sistema atual.

Ao contrário do que o Joel dá a entender, esse discurso não é novo: ele é basicamente o mesmo feito por Fernando Collor de Mello, e é a base do que o levou à presidência. A grande diferença é que Collor falava mais voltado ao povo, falando no trabalho dos descamisados, na possibilidade de se abrir um pequeno negócio e em diminuir os impostos para as pessoas mais simples. O autor quer dizer o mesmo, mas não tem um discurso tão antenado nos anseios da população. Por isso, ele deve obter menos sucesso.

O liberal luta pela simplificação de nossa carga tributária.

Não consigo imaginar quem lute pela complicação da carga tributária. Talvez a apenas a Sociedade Brasileira de Contadores, ou algo parecido com isso. A reforma tributária é um desejo comum, mas infelizmente Joel não menciona alguns problemas crônicos do nosso sistema tributário, ele não vai além do mais simples e do menos controverso. Não passa do truísmo banal.

Não quer só privatizar, mas, sim, criar mercados mais dinâmicos, mais variados e abertos à concorrência. Avalia políticas sociais não pelas intenções, mas pelos resultados. Prioriza a educação básica, estimulando e replicando experiências de sucesso.

O liberal defende que o Brasil se integre economicamente ao resto do mundo. Propõe mais autonomia para Estados e municípios. Almeja tomar a vanguarda de debates culturais e sociais, como pautas LGBT, bioéticas, reprodutivas, política de drogas, propriedade intelectual.

Metade desse discurso replica o do ex-presidente no vídeo que linkamos. A outra metade dificimente deve encontrar ressonância na população brasileira, largamente refratária a essas políticas. Novamente, aqui, Collor teve mais chances de sucesso.

Precisamos de líderes políticos novos e corajosos para defender limites à própria política, que se façam reais servidores, e não patrões da sociedade.

Aos defensores da mensagem liberal resta encontrar a voz certa para promover essa transformação. Um Brasil mais rico, mais justo, mais livre e mais feliz é possível.

Talvez vocês possam mandar uma carta para o político que teve maior sucesso com essa plataforma, o ex-presidente Fernando Collor de Mello… Mas, com perdão do chiste, não queremos nos valer de um argumentum ad collorem para refutar o texto da Folha. O que está em questão é que  o cotejamento com aquilo que se disse no texto mostra essas propostas não são nada novas dentro do cenário político nacional. Com efeito, refletem tendências que estão presentes em nosso país desde o século XIX. Essa é a real antiguidade do Liberalismo aqui.

O fato é que a débâcle do collorismo resultou em um crepúsculo de muitas figuras liberais brasileiras, falemos de José Guilherme Merquior, Mário Henrique Simonsen, dentre outros. Pessoas que, ao se associarem a um regime falido, tiveram sua reputação seriamente manchada. Mas esse esquecimento do ideário liberal (ainda que tenha voltado no governo FHC, mas sem um real apoio intelectual) no nosso país não significa que ele nunca tenha existido ou mesmo sido tentado no país. Não há nada de novo no Partido Novo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s