A loucura das cidades brasileiras

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Um dos lamentos mais frequentes do falecido Ariano Suassuna era que muitos brasileiros quereriam que o Brasil fosse uma cópia dos EUA. O autor rebatia os americanófilos: “Não quero que o Brasil seja uma cópia nem mesmo de primeira categoria dos Estados Unidos, muito menos de segunda. Eu quero que o Brasil seja Brasil.” Infelizmente esse desejo do mestre está cada vez mais distante da realidade. Em todos os assuntos o Brasil olha para fora em busca de um guia infalível, oscilando entre EUA e Europa – “especialistas”, “ativistas” e “intelectuais” elegem um modelo e se estabelece um consenso de que aquele é o ideal a ser seguido.

Por várias décadas nossas cidades seguiram um ideal alienígena e totalmente desprovido de sentido para o contexto nacional, e o resultado catastrófico qualquer um consegue ver apenas comparando o que eram nossas cidades no começo do século passado e o que são hoje. É absolutamente cristalina a deterioração de qualquer personalidade ou característica nacional nas cidades brasileiras: tudo é eventualmente relegado ou simplesmente demolido para dar espaço às “máquinas de viver” importadas.

Arrabaldes, vilas, mocambos, travessas e ruelas são apagados como uma memória embaraçosa que deve ser esquecida o quanto antes para que sejamos aceitos no rol de países “modernos” e “avançados”. Em seu lugar, erguemos orgulhosamente centenas de shopping centers, home services, flats, studios e varandas gourmet. O problema principal dessa lógica “modernizante” é que mesmo com grande esforço, o resultado final de nossa imitação é apenas uma cópia “de segunda” (ou terceira): a concentração de infra-estrutura coloca as cidades brasileiras entre as mais engarrafadas do mundo e o déficit habitacional é da ordem de dezenas de milhões.

O brasileiro urbano médio vive nessa eterna ansiedade de cachorro correndo atrás do próprio rabo porque as cidades em que vivemos perseguem um ideal que na melhor das hipóteses é uma utopia absurda, e na prática acaba sendo uma versão “pirata”, comicamente tosca, do país da moda. Os reflexos dessa discrepância entre ideal e realidade levam, literalmente, à loucura. 

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